Quaresma: um tempo da Presença Mística de Deus, um tempo de transformação,
de impotência, de aridez espiritual, um tempo de deserto em que nossa alma reza
sem sentir sua proximidade ou experimentar suas doces consolações. Se a nossa
busca por Deus nesses períodos áridos leva nossa alma a atos de fé pura, então
podemos agradecê-lo com uma alegria santa, que é uma alegria não sentida, pois
nessa seca espiritual podemos ter certeza de que nossa oração está sendo
nutrida até a maturidade e nossa alma sendo aperfeiçoada de modo único pelo
próprio Espírito do Senhor.
"A oração encontra sua eficácia sobrenatural na qualidade da fé que a
anima" (Beato Maria Eugênio do Menino Jesus).
Quando o Senhor permite que suportemos tempos de dolorosa escuridão
espiritual, nossas almas são deformadas para que possamos ser refeitos e
transformados. E as dores do crescimento machucam. A qualidade da nossa fé
parece ser esticada ao limite, porque Deus precisa que ela suporte uma medida
do seu poder sobrenatural, para nos unir a Ele em um sofrimento voluntário que
lhe conquistará muitas almas.
Esses são tempos de grande transformação porque nossa fé está sendo medida
e fortalecida pelo próprio Deus, animada pelos dons do Espírito do Senhor. E
nessa escuridão espiritual, podemos sempre lembrar... onde estão os dons, ali
está também o Doador.
Podemos situar nossa própria jornada espiritual quaresmal em um
acontecimento que envolve o profundo sofrimento de Marta, amiga de Jesus (João
11:21-39).
Marta e Maria enviaram um recado a Jesus para avisar que seu irmão, Lázaro,
estava muito doente.
Jesus tinha grande amor por essas três pessoas.
No entanto, quando o Senhor soube da grave doença de Lázaro, e apesar da
confusão que sua decisão causou entre os Apóstolos, Jesus demorou a retornar à
casa de seus amigos queridos.
Quando Ele e os Apóstolos finalmente chegaram, Lázaro já havia morrido há
quatro dias e estava sepultado:
SENHOR, JÁ CHEIRA MAL; FAZ QUATRO DIAS QUE ELE MORREU" (João 11:39).
Se alguma vez passamos por uma crise, ou estivemos imersos em uma
circunstância esmagadora que abalou nossa fé, ou incapazes de respirar diante
de uma dor profunda que parece atrair apenas o silêncio confuso do Céu, podemos
ouvir algo do nosso próprio espanto ferido nas palavras de Marta a Jesus,
quando Ele finalmente chegou:
"Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido."
Por um tempo, houve apenas silêncio de Jesus à mensagem de Marta, quando
ela suplicou sua intervenção. Suas palavras a Ele parecem sugerir que sua fé
nele estava abalada, um período de quatro dias em que Marta pode ter estado
mergulhada numa densa escuridão espiritual.
Talvez nós também sejamos convidados a passar pelo sofrimento espiritual de
Marta.
Nesses momentos, e durante nossa escuridão quaresmal, recordamos a profunda
reflexão de São João da Cruz: "Deus não cabe em um coração
ocupado."
Suplicamos a Ele que nos ajude a enxergar, nomear e entregar tudo o que
está desordenado e ocupa nosso coração, distraindo-nos de Sua Presença em
nossas almas, para que possamos abrir mais espaço para Ele.
Quando Ele se aproxima de nós, nossos olhos espirituais, desacostumados ao
brilho da Presença de Deus em nossa alma, tornam-se temporariamente,
espiritualmente cegos. Este é o momento em que São João da Cruz nos orienta e
conduz à "santa escuridão", quando nossa cegueira nos faz parar,
quando não temos fórmulas de oração para nos ajudar a seguir na "direção
certa" para encontrá-Lo, quando nossos sentidos são impotentes para
"sentir" o caminho, onde nossa capacidade de raciocinar está enevoada
e nossa vontade, muitas vezes alimentada por emoções desordenadas, começa a ser
purificada, quando as doces consolações e iluminações de Deus estão ausentes.
Nessa preciosa santa escuridão de purificação mais profunda, quando nosso
Diretor é o próprio Espírito do Senhor, começamos a morrer para nós mesmos.
Voltamos ao diálogo do Evangelho entre Jesus e Marta para ouvir a
surpreendente proclamação de fé de Marta em sua profunda escuridão. A vemos
vivendo aquelas misteriosas palavras do Beato Maria Eugênio:
"A oração encontra sua eficácia sobrenatural na qualidade da fé que
a anima. "
O Senhor Jesus diz a Marta que Ele é a ressurreição e a vida, que quem nele
crê, ainda que morra, viverá:
E, diante da multidão silenciosa e atônita, Ele aprofunda-se na alma de
Marta,
"... quem vive e crê em mim jamais morrerá. Crês nisso?"
DAS PROFUNDEZAS DE SUA SANTA ESCURIDÃO, DE SUA DESOLAÇÃO, SUA ABSOLUTA
IMPOTÊNCIA, SUA PROFUNDA DOR, DA APARENTE TRAIÇÃO DE UM AMIGO PROFUNDAMENTE
AMADO E CONFIADO. DESSAS PROFUNDEZAS DE SEU TURBILHÃO INTERIOR, OUVIMOS AS
PALAVRAS SURPREENDENTES DE FÉ DE MARTA:
"SIM, SENHOR, EU CREIO QUE TU ÉS O MESSIAS, O FILHO DE DEUS, QUE HAVIA
DE VIR AO MUNDO."
Quase conseguimos ver os rostos chocados dos que se aglomeravam ao redor de
Jesus e Marta, aproximando-se para ouvir cada palavra dita por eles.
E o Senhor Jesus se aproxima do túmulo, ordena que removam a pedra e chama
Lázaro para fora da morte.
"A oração encontra sua eficácia sobrenatural na qualidade da fé que
a anima."
Jesus, Deus, sondou profundamente a alma de Marta, encontrou ali uma fé
magnífica que havia sido aperfeiçoada com o bisturi espiritual do sofrimento e
Ele, o Senhor, recompensou a "qualidade da fé" que ali encontrou e
imediatamente ressuscitou Lázaro dos
mortos.
Podemos levar à oração as palavras de Santa Teresinha do Menino Jesus e da
Sagrada Face:
"Jesus faz milagres para seus amigos mais queridos somente depois
de testar sua fé. Ele deixou Lázaro morrer, mesmo depois que Marta e Maria lhe
mandaram avisar que ele estava doente. Mas depois da provação, que recompensas!
LÁZARO RESSUSCITA DOS MORTOS."
A partir de nossa própria santa escuridão, onde Deus está reformando e
transformando nossas almas, podemos perguntar: como podemos nos entregar sem
reservas quando sentimos que não temos nada a oferecer a Ele, apenas impotência
e desolação?
Rezamos novamente com Santa Teresinha...
E mesmo quando eu não tiver nada, eu lhe darei esse nada.
Tu, Senhor, descerás à minha pequenez e
transformarás esse nada em fogo vivo."
Então ouviremos a resposta do Senhor:
"EIS QUE VENHO SEM DEMORA. TRAGO COMIGO A MINHA RECOMPENSA"
(APOCALIPSE 22:12) .
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Thank you and may our tender God continue to bless you with His great Love.
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